Currutela – 10/01/09

De uma antiga currutela escapavam ruídos que só os loucos podiam decifrar. Paredes recém pintadas... Clausuras de eras hostis... O que não conseguimos destruir tentamos aprisionar. Eis que surgiu por entre o tecido mais vagabundo a dama que não tinha alma. O absinto desperdiçava-se entre lábios marcados e a taça de vidro. Trazia consigo um vestígio de inocência. A noite é muito cruel com suas crias. A pele flácida maquiava o mal gosto que escondia sua idade.

Sem pronunciar uma única palavra chamou-me com os olhos e começou a me guiar. A incoerência de suas mãos que apesar de calejadas, ainda assim eram macias e suaves exercia sobre mim um certo fascínio. Chegamos finalmente à ante-sala do inferno. Restos de cigarro e cocaína decoravam o tapete bordeaux. Ainda em silêncio me abraçou suavemente como se fossemos dançar. Ao encostar sua face contra a minha, pude sentir o perfume extremamente forte e doce que a purificava de momentos vividos anteriormente. Como se a noite tivera acabado de começar. Valsávamos lentamente um silêncio cortante que por vezes era interrompido por sussurros alheios ao quarto.

O toque quase imperceptível de seus dedos sobre meu paletó esboçava uma vontade reprimida, um rompante tímido de sinceridade que as convenções nunca permitiriam. Era linda a dama sem alma. O lusco-fusco do bangalô dava um ar enigmático para seus traços. Sua respiração era muito suave. Com um tom muito doce me perguntou como eu gostaria de começar... Repliquei perguntando se ela queria realmente começar. A dama não estava entendendo aonde eu queria chegar:

- Mas você veio aqui para que afinal?

- Voltei para te ver... Já estive aqui outras noites te observando...

- Continuo não entendendo!

- Deixe-me conquista-la. Não estou falando em prestação de serviços... Faremos apenas o que você quiser... Se quiser que eu vá embora, vou sem problemas...

- Mas já estamos aqui, você tem que pagar porque senão eu...

- Sim, eu sei, fique calma... já está pago... Não quero seus serviços profissionais...

- Mas o que quer então?

A esta altura eu não sabia mais o que eu estava fazendo, ou o porque daquela obsessão... Era simplesmente uma vontade de ficar ali, valsando aquele momento que com toda certeza, dentro de poucas horas seria como um sonho... Eu não precisava de beijos ardentes ou de uma intensa noite de amor... Precisava de tranquilidade, doçura... Precisava de sinceridade, inocência... Quanto mais eu tentava me explicar, menos a donzela parecia entender:

- Mas se você está procurando por inocência, olha, aqui não é o lugar não.

Deitamo-nos na cama imunda, nos lençóis maculados pelo descaso, violência e preconceito. Por um breve instante me senti completo, mesmo sabendo que aquilo tudo não passava de uma ilusão, de um delírio moribundo... Eu me alimentava de seu amor de mentira... Passaria noites a fio acariciando seus cabelos, sua pele, rosto e lábios... Sentia uma necessidade absurda de cuidar, de tratar bem, de dar carinho... Aquilo me proporcionava alegria.

O que me surpreendeu foi que em poucos minutos, a donzela caiu em um pranto fino, apertado... Um choro entre dentes, preocupado. Achei desnecessário perguntar o motivo... Simplesmente continuei ali... Chorou por poucos minutos e adormeceu... Seu sono era tranquilo igual ao de uma criança... Livre de culpa, leve. Era a contradição em pessoa... Movimentos cuidadosos me colocaram sobre minhas pernas novamente, olhei uma última vez para a moça... Usei meu paletó como cobertor e protegi suas costas... Beijei seus cabelos e saí ainda exitante...

Me dirigi até o dono da currutela e oferecendo um bom dinheiro, praticamente lhe implorei:

- Deixe a moça dormir até amanhã.

- O seu dinheiro é quem manda...

Deixei a currutela sem olhar para trás. O amor havia se tornado uma dor física... Quanto mais impossível, mais desafiador, mais problemático, mais este amor me interessava.

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