Estrada (05/04/2009)

O asfalto fumegava, o dia estava deslumbrante. Estava eu de passageiro após longa data em um caminho rumo ao meu desconhecido. O paradeiro real era certo, os motivos que me conduziriam a este destino, mais certos ainda. Não havia nada de apoteótico... Que bom. A companhia era formidável! Queridos amigos. Aos poucos a vida vai se encarregando de nos afastar. Resistimos bravamente, somos muito diferentes uns dos outros... Que bom. Tudo foi muito simbólico, muito agradável e especial. Rimos muito, voltamos a infância muitas vezes... Quando digo rumo ao meu desconhecido, não sei se tem muito a ver com a natureza do palpável. A Estrada me faz pensar e observar. Tudo na Estrada tem uma cor diferente, um sabor diferente, um cheiro diferente... Sem dúvida, um dos meus clichês prediletos.

Tento recorrer a Estrada quando me vejo perdido. Me refugio em seu tempo peculiar, em suas formas sinuosas e em caminhos que nunca conhecerei. A Estrada me assusta, impõe respeito e ao mesmo tempo me encoraja, me seduz. Decisões importantes, arrisco a dizer que até mesmo definitivas... A Estrada me alerta - “Cuidado, talvez você não aguente o tranco” - Sempre preferi dúvidas a qualquer certeza e pago um preço muito alto por isso. Estou preocupado, quase não durmo, minha saúde se comporta de forma duvidosa, ajuda a instaurar o caos emocional... Minha profissão caminha para a extinção, ou como alguns preferem chamar, para uma transformação... Palavra capciosa, ambígua demais até para um ser ambíguo como eu. Estou quase sempre cercado de pessoas incríveis e mesmo assim, bebo minha solidão em goladas afoitas. Nunca produzi tanto, nunca estive tão feliz com minhas criações, nunca me levei tão a sério. Mesmo assim, nunca me senti tão estranho, tão só. Por vezes uma tristeza cortante, profunda... Passiva. É como se fugisse de mim mesmo.

A Estrada me fala muito sobre abdicar, sobre fugir... Fugir do que? De quem? Foi perdido em elucubrações e especulações, enquanto a chuva agredia o solo quente, notei que a Estrada nos levava de volta para a vida, para casa... A Estrada me levava de volta para mim!

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