FIM (22/11/2012)

Enquanto os ratos se espalham pelo convés, o mundo não da mole para o amor. A primeira dose é afiada como navalha, me faz pensar com alguma clareza, mas isso logo passa. Enrolo para matar a segunda, finjo ignorar o telefone que incomoda com tanto silêncio.

Estou a duas doses do fundo da garrafa enquanto os manicômios transformam-se em escolas no país em que a sanidade é parcelada no cartão de crédito... Nos carros, a felicidade é um conceito tão pálido quanto a mais nobre fruta fora de estação. E o telefone permanece mudo enquanto eu minto indiferença e a barba cresce.

O banho é abundante em água quente e a vida não vale uma carreira de pó. A imersão relaxa os músculos, derrete o gelo e o mundo volta a fazer sentido por alguns instantes... Logo a água esfria e o uísque esquenta... Sim, o planeta continua em movimento...

O tempo se encarregará aos poucos de me transformar em uma vaga memória... Quem sabe ao fim de longas e engraçadas futuras conversas, eu ganhe pelo menos cinco segundos dos seus pensamentos. Um local de destaque em algum lugar de um passado nebuloso. Uma era que será lembrada com o desdém das pessoas maduras...

A esta altura, estarei talvez sendo cortado por outras primeiras doses, enrolarei outras segundas e chegarei ao fundo de várias outras garrafas... Buscando em lembranças doloridas inspiração para mais um catálogo de loucuras, quem sabe tratando um câncer, quem sabe morto, quem sabe, feliz...

0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

De uma antiga currutela escapavam ruídos que só os loucos podiam decifrar. Paredes recém pintadas... Clausuras de eras hostis... O que não conseguimos destruir tentamos aprisionar. Eis que surgiu por

O asfalto fumegava, o dia estava deslumbrante. Estava eu de passageiro após longa data em um caminho rumo ao meu desconhecido. O paradeiro real era certo, os motivos que me conduziriam a este destino,

Quando você menos espera, já foi. Está acordado em uma manhã qualquer com o quarto ainda escuro obrigando-se a agradecer por ainda ter um teto. Saber aquilo que o aguarda não ameniza a dor... A cidade