Não Resta Nada (06/01/13)

Quando você menos espera, já foi. Está acordado em uma manhã qualquer com o quarto ainda escuro obrigando-se a agradecer por ainda ter um teto.


Saber aquilo que o aguarda não ameniza a dor...

A cidade cai enquanto se arrasta em direção ao banheiro, o mundo te ilumina com as incertezas, com as barbáries. No espelho, um estranho tenta se aproximar há 27 anos. A água agride as pálpebras, o cigarro exala do hálito e o álcool do suor. Quando se põe descente, pronto para enfrentar a vida, percebe que tudo já foi. Perdeu a estação e não se interessa em descer em mais nenhuma. Nada é realmente seu... Nada é eterno, em menos de trinta dias você pode desejar estar morto, estar longe, perder a memória. A luta perde o sentido. É como estar por anos em uma guerra na qual você não sabe nem como ou porque começou, não lembra sequer do motivo e nem vislumbra seu fim.

Te vendem carros, motos, seguros, cigarros, roupas, brincos, relógios, viagens, sonhos, realizações, família, sucesso, fama e autoestima por um preço muito alto... Querem seu sangue, sua alma e o que é pior, querem seu cérebro. Abdica-se de vidas para viver o devaneio do senso comum. Corrigindo, nem se chega a ter outra ideia de vida que não seja a do senso comum.

Por fim, muda-se o canal incessantemente ao longo de quinhentas opções que a TV a cabo lhe oferece. Come-se tudo e a fome continua ali, não há livro que conforte ou amor que preencha. Aliás, amor? É engraçado as pessoas falarem tanto em amor enquanto estão todos se matando no transito, nas famílias, nas escolas... Pegue qualquer relação de “amor” e manipule qualquer elemento, como por exemplo, o dinheiro. Brinque um pouco de Deus e perceberá que o que te vendem como amor, muitas vezes não passa de um pacote carência mais comodismo vendido a vista com um “puta” desconto.

Observar horas a paisagem não traz resposta alguma. Não oferece paz, compreensão, entendimento e muito menos alento. O vazio permanece, aumenta... Não resta nada, sugaram até a última gota do seu sangue, acabou a munição, acabou a água, a comida, a dignidade. Acabou o poder de persuasão, a força para argumentar, os dedos estão gastos de tanto desperdiçar escrita, a voz rouca, o olhar demente. Não sobrou nem sequer um esboço daquilo que um dia caminhou, comeu, amou, odiou, lutou, escreveu... Não restaram forças para matar... Muito menos para morrer.

Quando você menos espera, o dia já foi! Está acordado em uma madrugada qualquer testando todos os limites existentes para o corpo e espirito. Prever um possível futuro não ameniza a dor de talvez ter que vive-lo.

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